Lidar com a vida é uma arte e lidar com o final dela não tem poesia. Tudo é muito duro, cru. È preto no branco ou branco no preto. Faltam elementos para fugir da realidade, pois ela todo dia vem nos mostrar como somos pequenas e ao mesmo tempo grandes obras divinas.
Tento não desmoronar, afinal muitos dependem de mim. Mas o maior aprendizado vem do sofrimento, principalmente daquele que não é necessariamente o nosso, mas que nos pertence.
Ter um ente querido em idade avançada é uma benção porque é a ordem natural da vida: os mais velhos se vão primeiro. Abençoada esta família que não fugiu a regra. Mas isso não impede a dor, a preocupação, a ansiedade pelo que virá.
Minha mãe teve um AVC. Grave, mas não letal. Sério, mas reversível. Só que com sua idade (85 anos), só depende dela e não dos que a amam, prosseguir. Seu espírito sempre foi jovem (eu sempre enchi a boca para falar isso), pena que agora ela precisasse de um corpo mais jovem também, para poder superar. Lições, eu tenho, tirado muitas, dessa situação e tenho tomado consciência ainda maior, dos cuidados com a "máquina". Mas isso servirá (se Deus quiser) para mim. Para ela não. Ela precisa encontrar força ali, naquele corpo pesado, com dificuldades motoras, sem vontade de nada dos últimos dias. Durante um mês ela praticamente parou e agora precisa embalar de novo. Comer seria um bom começo: transferir energia através de algo prazeroso. Mas que nada...ela está com sonda nasal... engasga com a própria saliva. Todo o resto seria mais fácil, mas ficar sem comer... A hora da mesa é sagrada. Serve para situar o nosso dia: café da manhã, almoço, lanchinho, janta, o leitinho quente da noite... Tudo seria mais fácil.
Vir para casa é o próximo passo. Será uma tranferência pura e simples por enquanto (cama hospitalar, sonda, oxigênio, banhos na cama, dias de muito desconforto físico, fisio, fono... cansei).
Mas temos fé que em casa o ânimo voltará... a disposição será maior sem as paredes e o teto branco do hospital.
Para o meu pai, idem: ele merece seu cantinho. Não há ninguém neste mundo mais zeloso que meu pai. Sua missão se repete sempre que alguém precisa (seja da família ou não). Agora imagina com minha mãe, seu sempre amor. Dedicação e paciência nunca faltam, mas ele é um senhor que também merece cuidados. Em casa sua rotina será aliviada (ou não... olha a ansiedade...). Mas ali está seu computador, seu escritório, seus afazeres domésticos (sim é ele que faz quase tudo há muito tempo).
Estamos em compasso de espera. Dúvidas temos aos montes, mas neste tempo todo descobrimos certezas incontestáveis, como o amor e a cumplicidade que nos une, também na tristeza. Minha irmã e eu estamos disponíveis, mas é com meu pai que o elo de luz é mais forte.
Dona Carmen está amparada. Feliz ela, que pode contar conosco.
Cada um de nós não sabemos se teremos a mesma sorte.
Fique bem mamãe, porque eu não desanimo jamais.
Aprendi com você, que sempre foi muito forte.
Te amo.
QUERIDA MIRIAM,
ResponderExcluirQue texto sensível!Lembrou-me pensamentos de Simone de Beauvoir:"nos momentos difíceis de minha vida,rascunhar frase...me reconforta tanto...pela linguagem supero meu caso particular,comungo com toda a humanidade".Embora a dor de participar com todo o nosso ser do sofrimento de uma pessoa querida,através da escrita podemos compartilhar nossa solidão com nossos conhecidos e desconhecidos que vivenciam momentos semelhantes.Abraços Nara Curitiba